O sequestro do poder
No ano de 2003, a Califórnia, mais populoso, mais rico e mais importante estado norte-americano (USA), foi sacudido por um acontecimento político muito peculiar: um recall, uma espécie de referendo popular sobre a atuação de seus representantes.
O governador de então, Gray Davis, tinha seu mandato contestado pela população, que exigiu votação para aferir sua permanência ou não no cargo.
A causa do recall: incompetência administrativa e déficit insustentável - coisa, aliás, raríssima entre nós...
Reprovado o governador Davis, convocadas novas eleições - excluído o causador do recall, obviamente -, foi eleito Arnold Schwarzenegger.
Entretanto, no Brasil, uma vez eleito, o detentor do cargo eletivo, seja ele incompetente, desidioso, larápio, etc, tem o direito divino de permanecer no cargo até o fim, uma vez que foi "eleito democraticamente", "pela vontade popular sacramentada nas urnas", "pelo batismo do sufrágio universal".
Isso mesmo diante do texto cristalino do artigo 1º da CF/88: "Todo poder emana do povo..."
O poder dito "do povo", após as eleições, tendo aquele cumprido o seu papel protocolar de digitar o botão verde da urna, fica como que sequestrado nas mãos de, na grande maioria, representantes indignos de tal missão, por incompetência e por toda uma gama de vícios ainda mais infamantes de um político que se preze a si e ao povo que o elegeu.
Sim, sequestrado, pois, a menos que escândalos escabrosos, que tenham chegado à mídia, tornem insustentável a permanência no cargo, ou que autos de processos embolorados cheguem a um desfecho quase póstumo - tamanha a desfaçatez da morosidade e demais imoralidades processuais - o povo jamais poderá reaver as rédeas desse poder antes que se aproxime novo período eleitoral.
Precisamos de um sistema de recall, em todos os níveis da federação. Mas colocamos as raposas pra vigiar o galinheiro no Congresso Nacional.
Recall mesmo só da Ford, Kia, Fiat, etc.
Até breve.
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